Consignado impulsionou crescimento do Master sob alertas do BC

O Banco Master firmou acordos para oferecer crédito consignado a servidores de 105 órgãos públicos, prefeituras, governos estaduais e entidades de aposentados em todo o país. As informações foram enviadas pela própria instituição ao Banco Central, em março de 2025, durante o processo fracassado de venda ao Banco de Brasília (BRB).

Segundo os documentos apresentados pelo banco de Daniel Vorcaro, o consignado era o principal motor da instituição no varejo. A oferta de empréstimos e cartões de crédito consignados era apontada como um dos fatores para a expansão do conglomerado nos anos anteriores.

As operações de crédito consignado ganharam força após Vorcaro assumir o comando do então Banco Máxima, em 2019 — instituição que mais tarde seria rebatizada como Banco Master.

Dados do Banco Central mostravam que a carteira havia saltado de R$ 754,6 milhões, em 2021, para R$ 2,2 bilhões em 2022. Naquele ano, o consignado já representava 12,4% dos ativos totais do banco. Parte desse avanço, segundo a própria instituição, veio do crescimento do Credcesta, cartão de crédito consignado, especialmente no Nordeste.

À época, o banco informava aos investidores que consolidava presença no Norte e Nordeste e buscava avançar no Sudeste, especialmente em órgãos públicos de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Os dados enviados ao BC indicavam que, no momento da proposta de venda ao BRB, havia acordos ativos em oito estados — Alagoas, Paraíba, Amapá, Tocantins, Bahia, Rondônia, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro.

Os acordos firmados entre 2019 e 2025 incluíam 72 prefeituras. Em diversos casos, os convênios abrangiam institutos de previdência municipais, o que permitia a oferta de crédito a aposentados e pensionistas.

Um relatório da Laplace, consultoria contratada pelo Master para guiar negociações com o BRB e outras instituições, afirmava que a estratégia incluía acordos exclusivos para a oferta de crédito consignado a servidores.

São Paulo concentrava o maior número de municípios com parceria (28), incluindo a capital, que havia firmado acordo em 2020. Minas Gerais (8) e Rio de Janeiro (6) apareciam na sequência.

Banco Mestre
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Banco Mestre

Michael Melo/Metrópoles

Sede do Banco Master, em São Paulo
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Sede do Banco Master, em São Paulo

Rovena Rosa/Agência Brasil

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Reprodução/Banco Master

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, está preso em Brasília
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Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, está preso em Brasília

Reprodução

O banco também mantinha contratos com o Exército, a Aeronáutica e a Polícia Militar de São Paulo, além de tribunais de Justiça do Amazonas, Minas Gerais, Bahia e Paraíba. A lista incluía ainda a Justiça Federal do Piauí e a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte.

Segundo o Master, também havia acordo para oferta de consignado a funcionários do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Institutos de previdência estaduais também apareciam na listacomo São Paulo Previdência (SPPrev), Instituto de Gestão Previdenciária (Igeprev) do Tocantins, Amapá (Amprev) e Paraíba (PBPrev). Entre os municípios, figuravam as previdências de cidades como Santos (SP), Manaus (AM), Cuiabá (MT) e São Gonçalo (RJ).


Linha do tempo da crise do Master

  • 2018 a 2023: passando de Máxima ao Master, o banco trabalha para expansão, com aumento de captações e aportes. Nesse período, o banco passa a ser controlado por Daniel Vorcaro.
  • 1º semestre de 2024: o Master compra as instituições Voiter, LetsBank e Will Financeira. No mesmo período, o Banco Central exige um plano de contingência para garantir a liquidez.
  • Julho de 2024: o banco não cumpre o plano de negócios — que previa captar R$ 15 bilhões, mas levanta apenas R$ 2 bilhões. Segundo o BC, o desempenho agrava a crise.
  • Setembro de 2024: o Banco Central identifica falta de capital e falhas na gestão de risco de crédito.
  • Novembro de 2024: o banco interrompe a concessão de crédito corporativo e admite mudanças no controle para evitar o colapso.
  • Janeiro de 2025: Daniel Vorcaro inicia negociações com o BRB para vender o Master.
  • Fevereiro de 2025: a instituição passa a descumprir exigências de recolhimento compulsório ao Banco Central.
  • Março a setembro de 2025: o Master busca apoio do FGC, enquanto Vorcaro vende ativos pessoais para reforçar o caixa.
  • Setembro de 2025: o BC barra a venda para o BRB, e a crise chega a um nível crítico.
  • 18 dias depois: Vorcaro apresenta um novo plano ao BC e afirma que o controle do banco seria transferido em até 90 dias.
  • Novembro de 2025: o Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master.

Em carta enviada ao BRB em janeiro de 2025, o controlador Daniel Vorcaro afirmou que, dos 11 milhões de clientes do Banco Master, cerca de 5 milhões estavam concentrados no consignado. Ao longo de 2024, o banco declarou ter realizado mais de R$ 3,5 bilhões nesse tipo de operação.

Apesar da expansão, o Banco Central apontava fragilidades na rentabilidade. Relatórios de supervisão indicavam custos elevados para sustentar o crescimento da carteira, com gastos relevantes em consultorias e comissões para aquisição de clientes.

Em 2022, as operações de consignado chegaram a registrar prejuízo de R$ 25,6 milhões, segundo o BC. O resultado só não foi pior porque o banco vendeu carteiras de crédito a outras instituições financeiras.

O histórico de reclamações também chamava atenção. Como mostrou o Metrópoleso Banco Master acumulou quase 15 mil queixas sobre empréstimos consignados em uma plataforma do governo federal entre 2020 e 2026. Em bases dos Procons estaduais, foram registrados cerca de 9 mil casos no mesmo período.

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