Com poder de drenar o FGC, Emenda Master expõe articulação de Vorcaro

As revelações recentes da Polícia Federal sobre a fraude bancária do Banco Master evidenciaram como Daniel Vorcaro usava da influência no meio político para tentar mudar as regras do jogo e aumentar os lucros da instituição financeira que comandava.

Uma das principais investidas era a Alteração nº 11 à PEC nº 65/2023que ficou conhecida como Emenda Master e foi debatida por parlamentares de espectros políticos opostos.

Apresentada no Senado Federal por Ciro Nogueira (PP-PI) — que é uma das principais lideranças da oposição —, em agosto de 2024, a emenda foi integralmente redigida pela assessoria jurídica do banco controlado por Vorcaro, segundo investigação da PF.

No outro campo político, de acordo com a corporação, o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado Federal, recebeu vantagens indevidas para atuar em defesa de interesses do banco de Vorcaro no Congresso — como no apoio à Emenda Master. Nessa quinta-feira (18/6), a PF cumpriu mandados de busca e apreensão contra ele.


O que é a Emenda Master

  • A Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023 previa a ampliação do limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante em caso de quebra de instituições financeira.
  • A medida beneficiaria o Master, que sustentava seu modelo de negócios na captação agressiva de recursos protegidos pelo FGC, direcionando esses valores para investimentos de maior risco.
  • A emenda proposta por Ciro Nogueira ampliaria significativamente a capacidade de captação da instituição ao elevar o limite de cobertura do FGC para R$ 1 milhão.
  • Na avaliação de especialistas, a medida daria fôlego ao modelo de negócios do Master, permitindo a entrada de mais recursos de investidores.
  • Em contrapartida, a mudança poderia incentivar o chamado “risco moral”, em que instituições financeiras assumem estratégias mais arriscadas porque eventuais prejuízos seriam cobertos pelo FGC, enquanto os ganhos permaneceriam com os bancos.
  • Em mensagens, Vorcaro celebrou a emenda e a classificou como uma “bomba atômica no mercado financeiro” que “sextuplicaria” os negócios do Master.

Ciro Nogueira recebeu emenda da equipe do Master

Na última terça-feira (16/8), o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo de relatórios da PF sobre o caso Master. As investigações mostraram mais detalhes de como Daniel Vorcaro colocou no Congresso Nacional um projeto que visava beneficiar o Master, mas com risco de ser uma “bomba atômica” no FGC.

Os documentos indicam que, em 13 de agosto de 2024, data da apresentação da emenda no Senado, Daniel Vorcaro manteve comunicação com o então diretor jurídico do Master, André Kruschewsky Lima, sobre a versão final do texto.

Em diálogo, Vorcaro questiona “como ficou a versão final FGC?”, e recebe em resposta um arquivo intitulado “Emenda – PEC 65-2023 – revisada.docx”, com ajustes realizados pela equipe jurídica do banco.

Na sequência, segundo a PF, Vorcaro teria solicitado a impressão do material e entrega em um endereço no Lago Sul (DF), com instrução para que fosse colocado em envelope. De acordo com a investigação, o endereço informado coincide com o domicílio residencial do senador Ciro Nogueira.

A apuração sustenta ainda que a versão entregue seria idêntica à emenda posteriormente protocolada no Senado Federal, incluindo o conteúdo normativo e a justificativa, com apenas ajustes formais de adequação ao padrão legislativo.

Em mensagens posteriores a interlocutores, já após a apresentação da proposta, Vorcaro teria afirmado que o texto foi publicado “exatamente como mandado”, o que, segundo a PF, indicaria correspondência integral entre o documento elaborado internamente pelo banco e a versão apresentada no Congresso.

Em troca, a PF aponta que Ciro Nogueira teria recebido uma “mesada” em dinheiro vivo paga por Vorcaro, além de mimos com somas milionárias — viagens em jatos privados, hospedagens em suítes de luxo, pagamento de contas de restaurantes e até roupas de grifes.

A defesa do senador Ciro Nogueira foi procurada pelo Metrópolesmas não houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.

Augusto Lima e senador Jaques Wagner

No mesmo dia em que a emenda foi apresentada no Senado, o gestor ligado ao Banco Master, Augusto Ferreira Lima, realizou uma ligação de 9 minutos e 19 segundos ao senador Jaques Wagner. Logo após a conversa, ele encaminhou ao parlamentar o link da emenda recém-protocolada.

Duas semanas depois, em 27 de agosto, após um encontro presencial entre os dois, Augusto reencaminhou o mesmo link ao líder do governo no Senado.

Segundo a Polícia Federal, Augusto atuava como um canal recorrente de interlocução com Jaques Wagner, descrito como figura relevante em temas sensíveis ao grupo econômico investigado. Os investigadores registram ainda o envio frequente de informações sobre rating, estrutura acionária, Will Bank, PEC nº 65/2023, operação BRB/Master, requerimentos no Senado e a CPI do Master.

“A constância desse fluxo informacional sugere, em juízo preliminar, relação funcionalmente direcionada e não meramente social”, afirmam os investigadores.

O senador petista foi alvo de operações da PF nessa quinta-feira. De acordo com a investigação, a atuação de Jaques Wagner era recompensada com uma série de vantagens indevidas, como a aquisição de um apartamento em Salvador, avaliado em R$ 2,4 milhões. Os dados do empreendimento teriam sido repassados diretamente de Jaques Wagner para Augusto Lima.

Em nota, Jaques Wagner negou envolvimento com o Master, disse que está à disposição das autoridades e acompanha os desdobramentos “com tranquilidade”.

“Cabe esclarecer que o apartamento mencionado jamais integrou o patrimônio do parlamentar. O senador também nega atuação em favor do Banco Master ou qualquer outra instituição financeira”, disse nota da assessoria de imprensa do senador.

Benefícios para o Master

Mensagens analisadas por investigadores mostram as avaliações internas do Master sobre os efeitos da Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023. Em uma das conversas, o assessor jurídico do banco, Luiz Rennó, teria afirmado a Vorcaro: “Você sextuplica seu negócio”.

Em outro diálogo interceptado pela PF, Vorcaro comentou a medida com a namorada, Martha Graeff.

“Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica (no) mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes! Está todo mundo louco. Se fosse filme não teria tantos desdobramentos loucos”, escreveu o dono do Master.

Segundo a PF, o modelo de captação do Banco Master dependia fortemente da garantia do FGC para atrair investidores de varejo, oferecendo remunerações entre 120% e 140% do CDI — patamar acima da média do mercado, sustentado pela cobertura do fundo.

Com a ampliação do limite de garantia, o banco poderia aumentar significativamente o volume de captação protegido, ampliando a capacidade de expansão. Nesse cenário, conforme a investigação, parte relevante do risco seria transferida ao sistema financeiro como um todo.

Isso ocorre porque as reservas do FGC são formadas por contribuições das instituições financeiras associadas. Assim, eventuais prejuízos de uma instituição com maior exposição seriam compartilhados pelo conjunto do sistema bancário e, em última instância, repassados aos usuários do sistema financeiro.

Fonte da notícia (clique para ver)

Deixe comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos necessários são marcados com *.