A ambiguidade da candidatura a deputado federal | RDNews – Eleito o melhor site de Mato Grosso

 

Antes da urna, as pré-candidaturas, que não são apenas nomes lançados ao vento, revelam um dos momentos mais sofisticados da disputa política: aquele em que o poder ainda não se apresenta de forma acabada, mas já organiza seus movimentos, calcula riscos e mede forças.

Este momento que antecede a nitidez da candidatura formal, que testa, inclusive, o humor do eleitor, chegou no jogo de 2026 e já corre dentro do calendário aprovado pelo TSE.

Um amigo jornalista fez menção aos termos que uso para falar de pré-campanha; ensaio de poder, encenação, produção de viabilidade, distância entre estratégia e aparência e deduz que gosto desse negócio de calcular força e medir possibilidades de quem atua numa espécie de lugar incômodo na política.

Sob a lente da política, a candidatura de deputado federal fica espremida simbolicamente entre o brilho do Senado e a força local da Assembleia Legislativa, dois polos fortes da imaginação do poder e do eleitor.

O candidato a deputado federal ocupa um lugar intermediário entre o prestígio do Senado e a política do contato direto do deputado estadual.

O ponto estratégico é que, embora não haja obrigação jurídica, muitos partidos se esforçam para lançar nomes a deputado federal porque a eleição para a Câmara tem peso político e partidário nacional importante, inclusive para avaliação do

A candidatura de deputado federal fica espremida simbolicamente entre o brilho do Senado e a força local da Assembleia Legislativa, dois polos fortes da imaginação do poder e do eleitor

desempenho partidário e acesso a recursos financeiros e tempo de propaganda eleitoral.

Me vem à mente os nomes dos deputados federais Carlos Bezerra, que entre 1979 e 2023 teve 5 mandatos; Wellington Fagundes, de 1991 a 2015 teve 6 mandatos; e Pedro Henry, entre 1996 a 2015 teve 5 mandatos.

Eram nomes enraizados, tinham vínculos orgânicos com grupos sociais, densidade eleitoral e reconhecimento público capaz de sustentar a confiança na eleição.

Foram deputados que mantiveram familiaridade com suas bases no estado, participaram da política nacional em Brasília e concentraram poder em seus partidos.

Em 2022, Mato Grosso teve 163 candidatos a deputado federal. Grande parte, fora os 8 deputados eleitos e Rosa Neide, que teve mais de 120 mil votos, e alguns poucos que performaram quase 50 mil votos, foram lançados sem lastro — candidatos mais para compor chapa, cumprir meta partidária, do que para disputar de fato uma das 8 cadeiras da bancada federal do estado.

Tudo não passou de encenação calculada, zero de possibilidade de se eleger. Só existiam nomes e nenhum movimento de fortalecer a candidatura nos bastidores.

Em 2026, os nomes que despontam entre os mais votados para a Câmara Federal são de mulheres.

Os candidatos que surgiram das obrigações e demandas partidárias, das conveniências momentâneas e da necessidade de ocupar espaço no tabuleiro eleitoral não reúnem os meios para disputar uma eleição com sentido.

Existirão como uma peça de composição da engrenagem e ficarão para trás.

A coerência entre fala e voto, entre a defesa de pautas estratégicas e a presença institucional, o vínculo com a realidade do estado, entender o agronegócio, a logística, a vida nas cidades, ter sensibilidade com a vivência dos povos tradicionais, são alguns dos critérios para se avaliar deputados federais.

Para além da fama e dos barulhos nas redes sociais, não basta ter raiz no estado e presença em Brasília.

Olga Lustosa é socióloga e cerimonialista pública. Escreve com exclusividade para esta coluna aos domingos. E-mail: olgaborgeslustosa@gmail.com

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