Documentário sobre vida de Emily Bispo é produzido 3 anos após o crime em Cuiabá

Em 2023, no dia 16 de março, um crime de feminicídio chocou os mato-grossenses. Emily Bispo da Cruz, de 20 anos, teve a vida interrompida enquanto levava seu filho para escola no bairro Pedra 90. Emily é uma entre tantas outras vítimas de feminicídio do estado, que não tiveram suas histórias contadas e ficaram conhecidas apenas pela forma como morreram. Na intenção de resgatar a vida e memória de Emily, o documentário “Meu Corpo, Suas Regras” foi produzido e traz reflexões sobre o atual cenário de violência contra a mulher. 

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Como conta a estudante de jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e idealizadora do documentário, Bianca Mortelaro, a ideia da produção surgiu ainda em 2025, quando ela decidiu que queria somar na luta de combate a violência de gênero. Autodeclarada feminista, ela destacou que a escolha da história de Emily Bispo surgiu após o impacto causado em como o crime foi noticiado pela mídia local. 
“Eu recordo do assassinato dela porque foi bem no início da minha graduação. Eu entro na universidade em 2022, o caso dela ocorreu em 2023 e, quando eu me deparo com as notícias da morte dela, especialmente por conta de que havia um vídeo da sua morte que foi explicitamente divulgado, aquilo me doeu como mulher e foi um caso que me marcou bastante, devido a eu já ter um pouco mais de conhecimento do contexto jornalístico”, revelou. 
À época do crime, um vídeo registrado por câmeras de segurança que flagraram o momento da morte brutal foi amplamente divulgado na imprensa. A prática comum nas redes sociais e meios jornalísticos é criticada por pesquisadores da violência de gênero. O caso repercutiu e gerou comoção de moradores, que organizaram um protesto em que pediam por justiça. 
Conhecida pelo carisma e sorriso frouxo, Emily Bispo foi criada, parte de sua vida, em Várzea Grande, onde morava próximo ao Rio Cuiabá. Após a morte da mãe, ela foi morar no bairro Pedra 90, na Capital, sendo educada por sua avó e tias. Como relembrou sua prima Brenda Cruz, que participa do documentário, Emily engravidou aos 15 anos e se dedicou à criação do filho, mantendo a personalidade alegre, gentil e conversadeira. 
Para Bianca Mortelaro, que dirigiu e roteirizou o documentário, o maior obstáculo em resgatar a história de Emily Bispo foi não explorar a dor da família. “A principal dificuldade é a questão ética e a não exploração da dor da família e dessa vítima”, destacou.

Montagem/ Divulgação

Papel do jornalismo em debate
Em “Meu Corpo, Suas Regras”, além do resgate da vida e memória de Emily Bispo, há um espaço destinado para a discussão da cobertura jornalística de feminicídios. Entre as entrevistadas está a jornalista e pesquisadora da UFMT, Nealla Machado Valentim, que destaca como a falta de contexto sobre quem são as vítimas revitimiza as mulheres e normaliza o crime, que vive uma atual epidemia no país. 
“Quando a gente coloca num título, por exemplo, ‘a mulher foi morta, jovem é assassinada’, em que a gente não contextualiza que houve um agressor ou que a gente coloca apenas a imagem daquela mulher morta, a gente apaga que houve um agressor, a gente reduz aquela história a apenas aquilo. Então há essa revitimização, porque a atenção se desloca apenas ao corpo daquela vítima e não à situação em si, e não do agressor em si, do feminicida e isso acontece muito aqui em Mato Grosso, mas também na mídia nacional, então é um problema muito emergente na área da comunicação”, explica a diretora. 
Produção e lançamento
Com 35 minutos de duração, o documentário traz a perspectiva de quatro mulheres, entre elas, uma jornalista, uma psicóloga e uma representante do movimento de mulheres negras. As reflexões perpassam pela escala de violência contra a mulher no estado e também a mentalidade por trás dos feminicídios. 
A produção teve início em julho de 2025 e reuniu estudantes também do curso de cinema. A equipe de 14 pessoas se prepara para levar o documentário para festivais nacionais de cinema, o que impede a distribuição. O objetivo, após esse circuito, é poder distribuir o material em diferentes estados, sobretudo em Mato Grosso. Para Bianca Mortelaro, apesar de ser uma temática difícil de trabalhar, é preciso que seja discutida, já que o assassinato de mulheres vem se naturalizando. 
“O meu objetivo foi fazer esse resgate de memória da vida de Emily, para ir contra o que a mídia tradicional geralmente traz, porque essas histórias não são contadas. Então, eu acho que é importante a gente cada vez mais dar voz às vítimas, às famílias, à quem fica. A pessoa pode ter sido morta, mas sua memória continua, então é fazer esse resgate – não só dela, mas quem sabe futuramente fazer de outras também”, enfatizou a estudante. 
A data de estreia e possíveis exibições serão publicadas no Instagram, pelo perfil oficial do documentário. 
“MEU CORPO, SUAS REGRAS” Documentário sobre vida de Emily Bispo é produzido 3 anos após o crime em Cuiabá Documentário sobre Emily Bispo é produzido 3 anos após o crime no Pedra 90 Emily Bispo foi vítima de feminicídio em 2023; estudante levanta discussão sobre cobertura jornalística desses tipos de caso no estado

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