Entre raízes e resistência, siriri e cururu lutam contra o esquecimento | RDNews – Eleito o melhor site de Mato Grosso
No compasso da viola, no giro das saias e no bater de palmas, Cuiabá foi construída também pela cultura popular. Mas, neste 8 de abril, data em que a Capital mato-grossense celebra 307 anos de história, quem mantém vivas tradições como o Siriri e o Cururu faz um alerta: o risco de apagamento é real e, para representantes, já está em curso.
Em entrevista ao , Fernando Garcia e Osvaldo Brito – presidente e vice-presidente, respectivamente, do grupo de Cururu Tradição Cuiabana do Coxipó – e Edilaine Amorim, que preside o grupo de Siriri Flor Serrana, apontam que não se trata apenas de falta de espaço em eventos e sim de um processo silencioso de desvalorização que atravessa gerações, enfraquece vínculos comunitários e distancia, sobretudo, os jovens.
“O cururu está meio esquecido”
Sentado em meio a uma obra inacabada no Parque Ohara que, em breve, se tornará a sede definitiva do grupo, Fernando Garcia fala sobre um sonho coletivo: ter um espaço próprio para acolher e difundir a cultura. “É um sonho nosso de trazer tudo isso para cá, para estar divulgando mais a nossa cultura”, diz.
Segundo ele, hoje o grupo reúne cerca de 70 pessoas, entre integrantes e “simpatizantes” de diversas idades. “Tem gente de 12 até 84 anos. É uma tradição de longa data”, relata Fernando. No entanto, ele destaca que, apesar da diversidade geracional, o cenário preocupa: “O cururu está meio esquecido”.
Osvaldo Brito explica que a manifestação, que tem caráter religioso e está diretamente ligada às festas de santos, vem perdendo espaço até mesmo dentro dessas celebrações. “Hoje nós temos várias festas religiosas em Cuiabá que não agregam o cururu e o siriri”, critica o vice-presidente, que ainda destaca o fato de algumas celebrações optarem apenas pelo siriri. “O cururu não pode andar sem o siriri. Onde tem um, tem que ter o outro. É um casal que não pode se separar nunca”, defende.
O que se perdeu no caminho
A historiadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Mariana Destro Marioto, que também é professora de ballet, ajuda a entender esse processo. À reportagem, a pesquisadora aponta que o siriri nasce dentro das festas de santo, como momento de celebração e convivência, enquanto o cururu carrega uma dimensão mais litúrgica. Segundo ela, com o passar dos anos, o siriri ganhou visibilidade ao migrar também para os palcos – em um processo conhecido como “espetacularização”.
“Existem vários conceitos que pegam a ideia de espetacularização, várias visões diferentes. O que a gente pode perceber, na prática, é que esses grupos passaram a se organizar, então já não é uma coisa que acontece só na festa de santo. Vai ter passos específicos, a gente vai começar a nomear alguns desses passos, vai entrar a saia, vai entrar o chapéu, o figurino, tem a elaboração de uma coreografia, isso vai tomando um outro rumo. Não quer dizer que o siriri de quintal acabou. As duas coisas coexistem, elas caminham juntas também”.
Esse movimento, segundo Mariana, ajudou a ampliar o alcance, mas também criou um distanciamento da origem. E nem todos os grupos conseguiram acompanhar.
“O cururu já não teve essa perspectiva, principalmente porque são homens mais velhos. Então de ambas, tanto o siriri quanto o cururu, a gente vê que é esse repasse oral. A oralidade é o que faz com que essas gerações, que às vezes não sendo nem da família, mas de agregadas, de pessoas que vão aprendendo juntas. Porém, no cururu, apesar de serem homens mais velhos, você vê muita galera nova aprendendo. Tem meninos que adquiriram este respeito aos mais velhos. Ainda é pouco, mas é muito bonito de ver. Eu não acho que isso se acabe, mas eu acho que isso se adapta”, pontua Mariana.
Para ela, são os entraves diários que dificultam os grupos na hora de manter essas práticas, seja por não possuírem uma sede própria ou por falta de transporte para se deslocarem aos eventos, além da falta de cachê.
“Fazem tudo isso por amor e tirando do próprio bolso. Porque ali, no geral, pessoas que contratam dançarinos, é em troca de uma banana, uma água e um ‘muito obrigado pela sua preferência’. Para o festival, eles levam 12 casais, 24 pessoas, para dançar só o siriri. É muita coisa. E aí acaba que eles perdem oportunidades porque não conseguem se locomover sozinhos. Ou porque não tem carro, ou porque é muito distante, ou o Uber vai ficar caro, não dá para alugar um carro. Não dá. Então acabam perdendo grandes oportunidades também”, destacou a pesquisadora.
Quanto a isso, Edilaine reforça outro ponto de suma importância: o figurino. Segundo ela, quase não há o pagamento de cachê e quando isso ocorre, cada integrante não consegue ganhar nem R$ 100 reais cada. “E, por exemplo, a renda que coloca na barra da saia é R$ 46 o metro. Cada saia tem pelo menos seis metros. Então, só por aí você já calcula o custo de um figurino. Infelizmente, isso não é valorizado e não é de agora. Eu não estou falando uma coisa que é novidade. A gente está falando uma coisa que sempre houve em reclamação e nunca fomos ouvidos”, desabafou.
Infelizmente, isso não é valorizado e não é de agora. Eu não estou falando uma coisa que é novidade. A gente está falando uma coisa que sempre houve em reclamação e nunca fomos ouvidos
Três gerações e uma mesma luta
Edilaine Amorim, que diz com orgulho sobre ser neta e bisneta de cururueiros, relembra que, no passado, Cuiabá chegou a ter mais de 20 grupos de siriri. Hoje, segundo ela, são pouco mais de nove, ressaltando que não é só a quantidade que diminuiu, mas o contexto também mudou, assim como o aumento da desconexão com a origem.
“Se não existir mais as festas de santo, não vai existir o cururu, nem o siriri, nem a reza cantada. Siriri não é só espetáculo. Não é só a dança. Você vai encontrar o siriri na festa de santo. Se não sentir isso, você não dança de verdade”, apontou.
No Flor Serrana, Edilaine destaca que a tradição é também a herança familiar. “O grupo foi fundado pela minha mãe. Eu estou aqui e minha filha também. São três gerações caminhando juntas”.
À reportagem, sua filha, Kamily Amorim, que cresceu nesse ambiente e hoje atua como produtora cultural, relata que o Siriri ultrapassa qualquer definição técnica. “Representa tudo. Ele faz parte de mim, faz parte da minha vida”, diz.
Kamily descreve a rotina intensa de ensaios, viagens e apresentações – tudo sustentado, em grande parte, por trabalho voluntário -, detalhando quanto às dificuldades estruturais. Entretanto, ela é direta ao afirmar que isso não impede o grupo de seguir ativo.
“Todo mundo aqui está porque quer. Ama o que faz. A gente ensaia cinco dias na semana, às vezes sem saber nem onde vai ensaiar na próxima vez. O grupo não é só dançar. É o coletivo, é estar junto, é essa troca”, completa.
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teve a oportunidade de prestigiar um dos ensaios do Flor Serrana, que ocorreu na quadra da Escola Municipal São Sebastião, no bairro Coxipó da Ponte. No local, cerca de 18 jovens com uniformes que estampam o nome do grupo, somado aos sorrisos nos rostos e as conversas animadas, lembram, de fato, uma reunião familiar.
Após a orientação inicial de Kamily e com o set de músicas escolhido, as mulheres pegam as saias rodadas de suas bolsas, trazendo ainda mais cor ao local, com diversos tons de verde, vermelho, laranja e amarelo.
Logo no início, problemas técnicos com a caixa reforçam os entraves que precisam enfrentar diariamente. Mas isso não para o grupo, muito pelo contrário, todos se mostram dispostos a cantar juntos. Entretanto, após alguns minutos de agonia, a música finalmente começa a tocar, dando início a um conjunto de passos que formam uma coreografia animada, sorridente e cheia de aplausos.
Jovens e o desinteresse
Se antes o desafio era manter a tradição dentro das famílias, hoje ele passa também pelo ambiente digital. “O nosso desafio é combater as redes sociais, a tecnologia”, resume Osvaldo Brito.
Edilaine, no entanto, encontrou uma forma de virar esse jogo. Em vez de disputar, decidiu usar as mesmas ferramentas. “A gente usa as redes sociais para motivar. O jovem gosta de mídia, de status. Então a gente mostra isso para eles”, explica.
Todo mundo aqui está porque quer. Ama o que faz. A gente ensaia cinco dias na semana, às vezes sem saber nem onde vai ensaiar na próxima vez. O grupo não é só dançar. É o coletivo, é estar junto, é essa troca
A estratégia, segundo ela, tem dado resultado. Os jovens passaram a se orgulhar de vestir o figurino, segurar a viola e compartilhar nas redes. “Eles querem postar: ‘eu danço, eu faço parte’. Isso fideliza”, diz.
Um chamado urgente
Apesar das iniciativas, os grupos são categóricos: sem apoio, a resistência não será suficiente.“Precisamos levar o siriri e o cururu para dentro da sala de aula”, defende Osvaldo. Edilaine amplia o apelo: “Não adianta só resgatar os grupos. Têm que resgatar as festas de santo”.
Para eles, o poder público e a sociedade precisam assumir responsabilidade ativa – seja por meio de políticas culturais, incentivo financeiro ou simplesmente presença. Porque, no fim, a pergunta que ecoa entre eles no aniversário de Cuiabá não é apenas sobre o passado, é sobre o futuro e o quanto a cidade está disposta a preservar aquilo que a define.
“Eu ouvi uma frase que era mais ou menos assim: ‘Um povo sem cultura, é um povo sem identidade’. E realmente isso faz parte da gente. Querendo ou não, o siriri vai sempre estar nas nossas vidas, de alguma forma ou outra ele vai aparecer. Então, valorizem os artistas de quintal que estão lutando para manter essa cultura, porque não é fácil. Não deixem a cultura morrer, vejam e valorizem, engajem esses artistas para que chegue a mais pessoas, porque é isso que a gente quer. A gente só quer dançar e manter isso vivo, por amor mesmo, porque a gente ama e espera que as pessoas amem também”, compatilhou Kamily.
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