PT e Lula repetem método do passado para atacar reputação de Flávio
A quatro meses das eleições, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) têm intensificado a campanha de ataques contra o senador e pré-candidato ao Planalto, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), no contexto do escândalo do Banco Master e a possibilidade de um novo tarifaço do governo de Donald Trump, dos Estados Unidos, contra o Brasil.
A ofensiva remonta uma antiga estratégia de minar a reputação de adversários, que já produziu efeitos em disputas eleitorais anteriores.
A investida ganhou fôlego logo após a divulgação de conversas entre o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, sobre o financiamento do filme Dark Horse, que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A crise na pré-campanha de Flávio se intensificou com o anúncio do governo Trump de que pode aplicar novas tarifas contra importações brasileiras. Se confirmadas, as sobretaxas podem chegar a 37,5%.
As medidas caíram no colo do parlamentar, que na semana anterior havia se encontrado com o republicano na Casa Branca, em Washington. O PT viu espaço para ampliar a ofensiva de desgaste à imagem de Flávio. Nas redes sociais, apoiadores do presidente Lula emplacaram o termo “Tariflávio” entre os assuntos mais comentados no X.
Menções à defesa do Pix e à família Bolsonaro como “inimigos do Brasil” também tiveram boa performance.
O chefe do Planalto, por sua vez, elevou o tom e fez duras críticas ao filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em um evento em Goiás, na última semana, ele classificou o senador como “covarde” e “imbecil”.
“Todo covarde é assim. Fala a merda que fala e depois não tem coragem de assumir o que fala e fica tentando mentir. Ele falou. Ele foi pedir arrego: ‘Pô, Trump, dá uma porrada no Lula, taxa o Lula, porque o Lula vai ganhar as eleições. Não deixa, prejudica o Lula’. Imbecil. Ele não sabe que ele não vai prejudicar o Lula, ele vai prejudicar os empresários brasileiros”, disse.
Estratégia repetida
Especialistas ouvidos pelo Metrópoles veem semelhanças entre a ofensiva de agora e a tática utilizada em campanhas eleitorais anteriores, especialmente a de 2014, contra a então candidata do PSB, Marina Silva.
Na época, o nome da atual deputada federal ganhou impulso nas pesquisas após a morte de Eduardo Campos, que encabeçava a chapa à Presidência. No entanto, uma intensa campanha coordenada pelo time de comunicação da presidente Dilma Rousseff (PT) enfraqueceu a candidatura da adversária e ela terminou o pleito com 21% dos votos, ficando de fora do segundo turno.
O cientista político e professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP Hilton Fernandes aponta que, assim como Marina em 2014, Flávio apresenta alguns pontos de fragilidade em relação a outros nomes. É um dos fatores é o desconhecimento sobre o filho do ex-presidente.
Na avaliação do especialista, como parte da população não conhece o senador, é mais fácil criar uma atmosfera de desconfiança entre os eleitores — o que a pré-campanha de Lula tem conseguido explorar.
Outro ponto que pesa é a falta de entregas concretas ao longo de sua carreira pública. “O Flávio não tem muito o que mostrar. Ele tem uma carreira longa na política, em cargos públicos, mas não tem o que mostrar. Então, a campanha dele — e isso a gente vê em todas as declarações — vai ter que partir para para um discurso de valores, de ataques pessoais”, pontua Fernandes.
“Essa dependência dele de uma imagem pessoal, quando a imagem é arranhada, como aconteceu agora com Daniel Vorcaro, o efeito é muito forte”, acrescenta.
Efeito nas pesquisas
- Pesquisas de intenção de voto feitas após a divulgação das conversas entre Flávio e Vorcaro mediram o impacto do escândalo na disputa eleitoral.
- Levantamentos mostram que Lula voltou a se distanciar do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
- Segundo a sondagem do Datafolha, o petista tem 47% das intenções de voto contra 43% do senador no segundo turno. A Real Time Big Data aponta 45% para Lula ante 40% de Flávio.
- A pesquisa Vox Brasil, divulgada nessa sexta, mostra uma vantagem ainda maior: 42,1% do petista contra 33,6% do adversário.
O cientista político André César destaca que a “estrutura básica” da campanha de moer reputações é a mesma: o uso de instrumentos e do histórico que já existe, mas de forma amplificada. Na campanha de 2022, contra Jair Bolsonaro, o PT explorou imagens da pandemia de Covid-19 para associar o então presidente à crise sanitária.
“No caso do Flávio, hoje, pode falar de milícia, filho do Jair, você pode falar de um monte de coisa. Você vai usando os instrumentos e o histórico que já existe ali, que está dado para você. Mas a estrutura básica é a mesma.”
Outro fator que chama atenção e diverge de disputas eleitorais anteriores é a antecipação dessa guerra de narrativas que, na eleição deste ano, explodiu antes mesmo do início oficial da campanha eleitoral.
Os especialistas alertam que, como resultado dessa antecipação, é possível que os efeitos da ofensiva arrefeçam até o momento do pleito — a menos que surjam novos fatos que possam ser explorados eleitoralmente.
Capilaridade nas redes
Por outro lado, para Flávio Bolsonaro, o desafio é conseguir resgatar as estratégias usadas na campanha vitoriosa do pai dele em 2018. O grupo próximo ao filho do ex-presidente tem mais capilaridade nas redes sociais e conhecimento do uso político e eleitoral da internet.
A questão é saber a partir de quando a campanha de Flávio conseguirá usar o capital digital a seu favor.





