saiba se é possível erradicar casos até 2030
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu como meta eliminar o câncer de colo do útero como problema de saúde pública até 2030. No entanto, ao contrário do que muitos pensam, a proposta não significa zerar os casos da doença, mas sim reduzir a incidência a níveis muito baixos.
Apesar do Brasil ter condições técnicas para avançar nessa direção, com o SUS oferecendo vacina gratuita, exame preventivo e tratamento, o país não alcança as metas de cobertura vacinal e nem mantém um modelo de rastreamento capaz de alcançar todas as mulheres que precisam.
No Brasil, parte das mulheres realiza o exame fora da faixa etária indicada, enquanto outras nunca foram testadas. Esse desencontro ajuda a explicar por que as taxas de mortalidade permanecem altas para uma doença que poderia ser evitada na maioria dos casos.
“É possível avançar muito e reduzir significativamente os casos e mortes, mas é improvável que a eliminação nos moldes propostos seja plenamente alcançada até 2030 sem mudanças estruturais mais rápidas diante da realidade atual”, explica a médica ginecologista Vitória Espíndola, da Maternidade Brasília e do Hospital Brasília.
Vacina disponível, mas com cobertura insuficiente
A OMS prevê bater a meta até 2030 por meio de três frentes: vacinação contra o HPV, rastreamento organizado e tratamento no tempo adequado. Entre as estratégias, a imunização é a principal forma de proteger as novas gerações antes do contato com o vírus.
Países que atingiram alta cobertura vacinal, como Austrália, Reino Unido e Suécia, já registraram redução significativa de lesões pré-cancerosas e de casos de câncer invasivo. No Brasil, a vacina é considerada segura e está disponível gratuitamente na rede pública. Mesmo assim, a cobertura ainda não alcança os 90% recomendados, especialmente entre meninos e em áreas de maior vulnerabilidade social.
De acordo com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), um dos principais obstáculos ainda é a combinação de desinformação, dificuldades de acesso e baixa percepção de risco entre as famílias.
“A falta de informação ainda pesa muito. Muitas mães não sabem que a vacina contra o HPV está disponível gratuitamente para meninos e meninas de 9 a 14 anos na rede pública”, explica a ginecologista Susana Cristina Aidé Viviani Fialho, presidente da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Febrasgo.
Segundo ela, outro fator que prejudica a adesão são notícias falsas sobre efeitos adversos do imunizante. “A vacina recebeu muitas informações negativas no início que não são verdadeiras. Isso acabou gerando receio em algumas famílias”, afirma.
Além disso, ela destaca que barreiras logísticas também dificultam. “Muitas mães trabalham em horário comercial e não conseguem levar os filhos ao posto de saúde. Isso com certeza impacta na cobertura”, diz.
Nesse contexto, a proteção coletiva depende de acesso, informação e da adesão ampla e contínua da população. Se as pessoas não se vacinam, o vírus continua circulando e o efeito esperado na redução dos casos demora ainda mais para aparecer.
Rastreamento desorganizado e desigual
Para as mulheres adultas, o exame preventivo continua sendo a principal forma de detectar mudanças antes que elas evoluam para câncer. O desafio não está na oferta do teste, mas na forma como ele é realizado. No Brasil, o rastreamento acontece, em grande parte, por iniciativa individual e não por uma convocação organizada do sistema de saúde.
Na prática, isso gera cenários em que há mulheres que fazem o exame fora da faixa etária recomendada ou repetem o teste em intervalos menores que o necessário, enquanto outras passam anos sem qualquer avaliação. O resultado é uma cobertura irregular, que não alcança quem mais precisa.
Outro ponto crítico é o acompanhamento dos casos alterados, já que muitas vezes, quando o exame aponta suspeita, a confirmação diagnóstica e o tratamento nem sempre acontecem com rapidez.
Mulheres com menor escolaridade e moradoras de áreas rurais ou periferias urbanas encontram mais obstáculos para acessar os serviços especializados. O cenário ajuda a explicar por que as regiões Norte e Nordeste, por exemplo, apresentam taxas mais altas de incidência e de mortalidade do câncer de colo de útero.
Diagnóstico tardio e tempo até o tratamento
O câncer de colo do útero evolui de forma lenta e pode ser interrompido ainda nas fases pré-cancerosas. Se o rastreamento falha ou há demora entre suspeita, confirmação e início do tratamento, a doença pode avançar para estágios mais difíceis de curar.
“Em geral, atrasos no diagnóstico e no tratamento podem causar progressão de estágio da doença, necessidade de tratamentos mais agressivos e uma pior chance de cura e maior risco de recidiva. Além do tempo, importa a qualidade e a adequação do tratamento”, orienta o médico ginecologista e obstetra Alexandre Silva, de São Paulo.
O intervalo entre suspeita, confirmação e início do tratamento também é outro ponto que faz diferença. Em muitos locais, a paciente precisa passar por serviços diferentes e enfrentar filas para exames e terapias, o que atrasa o cuidado. Nesse contexto, para avançar na meta de erradicação do câncer de colo de útero até 2030 no Brasil, é essencial garantir que cada etapa aconteça no tempo adequado.
“Como sociedade médica, a FEBRASGO também abraça essa causa. Publicamos recomendações e posicionamentos científicos para orientar ginecologistas e obstetras sobre as estratégias de prevenção e reforçar o papel desses profissionais na aplicação dessas medidas”, afirma Susana, da FEBRASGO.
